Witzel nega recebimento de dinheiro ilícito, relação com empresários e conhecimento prévio de irregularidades
Notícia publicada por Assessoria de Imprensa em 07/04/2021 22:55

 

 

O Tribunal Especial Misto (TEM), que julga o impeachment do governador afastado do Estado do Rio de Janeiro Wilson Witzel, concluiu nesta quarta-feira (7/4), após 12 horas de sessão, a fase de instrução do processo. Agora, a acusação terá dez dias para apresentar suas alegações finais. Após a apresentação, a defesa terá outros dez dias para fazer também suas últimas alegações.  Witzel foi interrogado pelo colegiado e pela acusação. Antes, o TEM ouviu o ex-secretário de Saúde do Estado Edmar Santos. Ao ser questionado pelos membros do Tribunal Misto - formado por cinco desembargadores e cinco deputados estaduais - o governador afastado negou as acusações de Edmar Santos e disse não ter recebido qualquer valor de origem ilícita, não ter mantido relacionamento com empresários e que orientava seus secretários a terem a mesma postura.

“Jamais recebi qualquer vantagem indevida de quem quer que seja como defensor, juiz ou governador. Tudo o que tenho é fruto do meu trabalho”, afirmou.  

Witzel declarou ainda que não tinha como desconfiar previamente das irregularidades na área da saúde. De acordo com ele, nada foi encontrado nas duas buscas e apreensões realizadas na sua residência. 

Ele se defendeu dizendo que não era sua função, como governador, fiscalizar  contratos da área de saúde. “Meu papel era saber se o hospital de campanha ia funcionar”, alegou, afirmando ainda ter tomado todas as providências necessárias após tomar conhecimento sobre as irregularidades em contratos da saúde. Ele contou também que, em 2019, determinou uma auditoria nas Organizações Sociais (OSs) que prestavam serviço à área e disse que todas apresentavam problemas. 

Wilson Witzel atribuiu a Edmar Santos a indicação de Gabriell Neves para ocupar o cargo de subsecretário de saúde estadual e afirmou que só soube que Edmar também estava envolvido nas irregularidades quando ele foi preso.  

Ao ser perguntado sobre o Pastor Everaldo, ele relatou que procurou o Partido Social Cristão (PSC) para sua candidatura e que seu contato com Everaldo, presidente do PSC,  inclusive em viagens pelo Brasil, foi em função da sua campanha.  

Sobre sua participação na política, Witzel revelou que de 1992 a 2001 foi do PSDB, tendo pertencido à Juventude Tucana, mas deixou a política quando se tornou magistrado federal. Sobre suas atividades como advogado, disse ter recebido R$ 22 mil do PSC para atuar em processos e que já chegou a receber proposta de emprego de R$ 2 milhões por ano.  

Quando questionado sobre uma tabela escrita com sua caligrafia em que eram listadas empresas e foi encontrada na bolsa de sua esposa, o governador afastado disse desconhecer o documento.

 
Choro e acusações
 
O interrogatório durou cerca de quatro horas. Antes de responder as perguntas, Witzel pediu ao presidente do TEM, desembargador Henrique Carlos de Andrade Figueira, para fazer uma explanação sobre as acusações e falou por uma hora e 15 minutos. O governador afastado iniciou dizendo não ter deixado 35 anos de vida pública, dos quais 18 vividos na magistratura, para ser ladrão.   
 
"O que estão fazendo com a minha família é muito cruel, senhor presidente. Eu decidi deixar a magistratura por um ideal, para que eu pudesse ajudar o povo do Rio de Janeiro. Por uma mudança. Por um futuro melhor". 
 
Em sua explanação, ele lembrou que quando escolheu Edmar Santos para ocupar a Secretaria de Saúde, o ex-secretário não dava indícios de ter histórico de corrupção, como foi constatado depois na investigação.  

"Nada indicava que o dr. Edmar tinha no colchão da casa dele oito milhões de reais. De onde veio esse dinheiro?", questionou. 
 
O governador acusou o ex-secretário de Saúde de receber propina em serviços prestados no Hospital Universitário Pedro Ernesto. Ele acusou também o empresário Edson Torres de ser o patrão de Edmar Santos. 
 
Witzel ainda comentou sobre a delação premiada assinada pelo ex-secretário.  
 
"O que tem de concreto no processo? Edmar foi pego com oito milhões. Ele foi pego com a boca na botija. Não conseguiu se livrar da investigação. E digo mais, Edmar fez a delação pra evitar que Gabriell Neves fizesse a delação na frente dele". 
 
Gabriell Neves, ex-subsecretário de Saúde, foi preso em maio de 2020 por suspeita de fraude na compra de respiradores. Ele foi exonerado em abril pelo governador Wilson Witzel. 
 
"Nunca avalizei o nome de Gabriell Neves. O rosário de acusações contra Gabriell Neves é vasto. O rosário de acusações contra Edmar é vasto. (...) Edmar tinha um patrão, que é o Edson Torres", afirmou Witzel. 
 
O governador afastado disse que, tão logo soube dos problemas envolvendo Gabriell Neves e Edmar Santos, tomou as providências necessárias. 
 
Ao insistir em sua inocência, Witzel fez um apelo ao Tribunal Misto. 

“Deixa o povo me julgar. Em 2022 teremos eleições. Não vejo um movimento ‘Fora Witzel’. Estou sendo julgado pelo STJ, vamos colocar a carroça em frente dos bois?”, declarou o governador afastado. 

Ainda segundo ele, “o processo de impeachment é muito doloroso. Não se trata de um julgamento onde ao final vamos resolver algo pontual. É o fim de um projeto político que foi eleito com 4,6 milhões de votos. Se esse processo for a frente, abre-se um precedente para que ninguém mais governe”, completou. 

Witzel está afastado do mandato desde agosto de 2020, por determinação do Superior Tribunal de Justiça em um outro processo — que deu origem ao pedido de impeachment e que corre paralelamente.

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Fotos: Brunno Dantas